Nas últimas semanas fiz um apanhado de livros nacionais sobre polícia e criminosos (no plural de número e gênero: homens e mulheres fora-da-lei) : Estação Carandiru, Rota 66 e Cela Forte Mulher. Leituras fáceis e prazerosas, mas que devo admitir são bem pesadas se pensarmos que infelizmente essa é a realidades brasileira…criminosos que dominam até mesmo as penitenciárias e uma polícia ineficaz e corrupta. É verdade que há a parte boa e a parte ruim dentro do sistema, pena que nossa sociedade vai se corrompendo mais e mais a cada dia.
Comecei por Estação Carandiru, um relato imparcial (ao contrário da péssima versão cinematográfica) do médico Drauzio Varella sobre os dez anos de convivência com os internos da casa de Detenção de São Paulo. Situado no bairro do Carandiru, a 10 minutos da Praça da Sé, marco zero da cidade, é o maior presídio do país e foi placo de uma das maiores chacinas da nossa história. Esse é o ponto, inclusive, em que o livro se diferencia do filme. Enquanto o primeiro traz crônicas sobre a vida de presos e funcionários dentro do Carandiru, sem pretensões de denunciar um sistema carcerário antiquado e desumano, o longa de Cacá Diegues parece querer enaltecer a bandidagem, pobres coitados que foram exterminados sem dó nem piedade pela Polícia Militar para conter uma rebelião no Pavilhão 9… deixemos de lado a hipocrisia porque ninguém lá era santo, e se fosse a situação contrária eles não parariam de atirar até que todos os policiais estivessem caídos. I rest my case : Carandiru, só o livro vale a pena!
Tá bom, tá bom, pra ninguém ficar achando que sou adepta dos “canas”, me dei a chance de conhecer um pouco das falcatruas que rolam do outro lado. Rota 66 : a história da polícia que mata, trabalho investigativo fantástico do jornalista Caco Barcellos, mostra em detalhes os métodos de atuação de extermínio do “esquadrão da morte” que agia em São Paulo entre 1970 e 1992. Nesse período a Rota foi responsável por mais de 12 mil mortes inocentes. Pior, a maioria esmagadora das vítimas encarceradas e torturadas brutalmente, tendo como provas (obviamente errôneas) simplesmente cor da pele e classe social. Com certeza isso só podia ser fruto de uma mentalidade doentia e violenta, de policias indignos que se achavam invencíveis em suas fardas. Também pudera, Barcellos mostra sem pudores como o sistema judiciário da Polícia incentiva esse tipo de ação, acobertando assassinos fardados em julgamentos que beiram o inconcebível: local do crime alterado, provas forjadas, sem contar perícias e depoimentos a favor das vítimas inocentes que são simplesmente ignorados no processo.
Por último, uma realidade que sabemos existir mas preferimos fingir não ver : a criminalidade feminina. Há quem pense que mulher não rouba, não mata, não mutila… ledo engano, Cela Forte Mulher mostra que por mais inteligentes, femininas e (sempre) vaidosas, elas podem ser altamente calculistas e cruéis. O jornalista Antônio Carlos Prado, voluntário em um presídio feminino de São Paulo, mostra o universo das mulheres presas num relato escrito com a colaboração das presidiárias, e a pedido delas. A leitura conquista porque é muito mais profundo que a vida atrás das grades, remete às histórias pessoais das detentas, seus familiares, seus envolvimentos com o crime e principalmente às suas sexualidades. E é bom deixar de lado a ilusão do “amor-bandido” que as levam cometer delitos, ou então a necessidade de roubar para dar de comer aos filhos, boa parte dessas mulheres são de classe média (e média alta também) e gostam mesmo de infligir a lei, sentem prazer nisso. Uma coisa é certa, elas realmente seduzem, tanto as vítimas quanto os leitores.


